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Zonas mortas na cóclea e aparelhos auditivos: Sobre o que estamos falando?

zonas mortas na cóclea
Angela Gordo
Escrito por Angela Gordo

No processo de reabilitação auditiva, além do uso de recursos tecnológicos, encontramos também o desafio de identificar as necessidades do deficiente auditivo, tanto pessoais quanto fisiológicas.  Desse modo, entender como a cóclea, ou seja, o órgão auditivo funciona, é de suma importância para selecionar as estratégias de amplificação que forneçam maiores benefícios. 

O primeiro passo para o diagnóstico da perda de audição é o exame audiométrico, onde são obtidos os limiares de audição do indivíduo, ou seja, o ponto a partir do qual ele começa a ouvir determinado som. Entretanto, estudos sobre o funcionamento da cóclea mostram que os limiares audiométricos podem na verdade serem provenientes de zonas mortas na cóclea, ou seja, vir de uma região onde as células ciliadas internas e/ou neurônios adjacentes não se encontram efetivamente funcionais. Nestas regiões, a informação acústica gerada não é transmitida ao sistema nervoso central, ou seja, não é de fato “ouvida”.  

As zonas mortas da cóclea, comumente ocorrem em perdas auditivas acentuadas nas frequências altas (perda em agudos), mas podem também aparecer em frequências baixas (nos graves) em casos de surdez congênita . 

E como saber se este fenômeno está presente? Alguns pesquisadores propuseram um teste clínico para o diagnóstico de zonas mortas na cóclea, denominado TEN (Threshold Equalizing Noise – ruído de equalização dos limiares), para a obtenção de limiares entre 125 a 15.000 Hz.  

E por que isso é importante? 

Porque fornecer amplificação, por meio de próteses auditivas, em zonas mortas não traz benefício e, em alguns casos, pode piorar o desempenho do paciente devido à distorção gerada pelos sons quando aplicado nessas regiões. Por isso, alguns pesquisadores sugerem que a amplificação deve ser reduzida nas frequências nas quais a perda auditiva seja severa ou profunda.  

Comprovando essa informação, algumas pesquisas que analisaram a amplificação fornecida em frequências altas para indivíduos sem e com zonas mortas, sugeriram que o grupo com zona morta obteve menos benefício no reconhecimento de fala no ruído. 

Em estudo realizado no Brasil em 2007, foi avaliada a relação entre a audibilidade em frequências altas e o reconhecimento de fala em indivíduos com perda auditiva descendente, com e sem zonas mortas na cóclea. Testes de fala foram aplicados em diferentes condições de escuta, iniciando pelos testes sem prótese, em seguida com próteses auditivas amplificando a faixa de frequências de 100 a 8000 Hz (programa 1) e por fim com próteses auditivas fornecendo amplificação em faixa restrita de frequências, de 100 a 2560 Hz (programa 2), evitando o ganho em altas frequências.  Os resultados obtidos mostraram que indivíduos sem zonas mortas na cóclea apresentaram maior benefício com a amplificação em frequências altas. Já na presença de zonas mortas na cóclea, os indivíduos apresentaram melhor desempenho com a amplificação em faixa de frequências mais estreita.  

Os grupos estudados mostraram diferenças importantes no desempenho obtido em todas as avaliações realizadas. Antes de identificar a presença de zonas mortas na cóclea, os índices de reconhecimento de fala já indicavam maiores dificuldades para o grupo com zonas mortas da cóclea. Alguns pacientes deste grupo relataram não conseguir permanecer com as suas próteses auditivas, preferindo estar sem elas, devido ao benefício reduzido. 

 Quando adaptamos as próteses para a realização da pesquisa, estes pacientes relataram a melhora da qualidade sonora com o programa com faixa de frequência reduzida que apresentava maior “clareza” e ausência de “chiado”. 

Portanto, nem sempre a estratégia de oferecer amplificação sonora em frequências mais altas, é a ideal. É importante avaliar a presença de zonas mortas na cóclea para que a amplificação oferecida possa ser mais adequada e favorecer a reabilitação auditiva em casos de perdas auditivas descendentes.   

Para quem deseja ler esta pesquisa na íntegra, acesse o link http://www.scielo.br/pdf/rboto/v73n3/a03v73n3.pdf 

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