Artigos Mapeamento de Fala Variados

Como surgiu o termo Mapeamento de Fala? 

Como surgiu o termo mapeamento de fala
Luciana Garolla
Escrito por Luciana Garolla

Como surgiu o termo Mapeamento de Fala? 

E quando ele realmente passou a ser conhecido e utilizado no Brasil

Um pouco da história em Verificação Eletroacústica: O desenvolvimento do conceito de Mapeamento de Fala (Speechmap)

O termo Mapeamento de Fala é uma tradução livre do termo em inglês Speechmapping, que foi apresentado pela primeira vez em 1992, pela empresa canadense Audioscan. O conceito foi inspirado no trabalho de dois pesquisadores, Margo Skinner e David Pascoe, do Central Institute for the Deaf. Tendo como base o uso de sinais simulados de fala para criar um mapa da fala amplificada dentro do campo dinâmico de audição do indivíduo – por isso o nome Speechmap® ou Mapeamento da Fala.

Esta foi a primeira empresa a desenvolver e comercializar equipamentos de verificação eletroacústica que fizessem uso de estímulos calibrados de fala para verificar a amplificação de aparelhos auditivos. O trabalho desenvolvido pela Audioscan foi pioneiro, principalmente ao permitir que a verificação da amplificação de bebês e crianças ocorresse em acopladores, de acordo com o método prescritivo DSL, desenvolvido pelo Prof. Richard Seewald e seus colaboradores na Western Ontario University, no Canadá.

Foi também nessa época que os primeiros estudos forneceram provas de que o uso de estímulos de fala para verificação da amplificação teria grande influência nos ajustes (programação) dos aparelhos auditivos (Stelmachowicz et al, 1996; Scollie et al, 2002). Já era nítida a evolução tecnológica dos aparelhos auditivos e estímulos modulados (ruídos). Os que antes eram utilizados na verificação da amplificação, começaram a ser classificados como ruído pelos aparelhos. Com isso, deixaram gradualmente de ser utilizados para avaliação, pois não forneciam informações sobre como a fala estaria realmente sendo amplificada.

Em 2001, o equipamento Audioscan Verifit 1 disponibilizou pela primeira vez gravações calibradas de fala real para avaliação da amplificação em língua inglesa, nas vozes masculina, feminina e infantil. Em 2010, houve a publicação e inclusão de um estímulo de fala universal para verificação da amplificação da fala, o ISTS, que é composto de seis línguas diferentes e, portanto, passível de uso em qualquer país do mundo. Já que os aparelhos auditivos são produzidos em sua grande maioria na Europa, e exportados para inúmeros países, devendo, portanto, amplificar a fala independente da língua do país a que se destina.

Verificação Eletroacústica de próteses auditivas no Brasil

No entanto, até pouco tempo no Brasil, tudo que era conhecido em termos de verificação eletroacústica se restringia a um teste chamado Ganho de Inserção. Por conta disso, até hoje os equipamentos de verificação eletroacústica são popularmente conhecidos no Brasil como equipamentos de ganho de inserção.

Publicações brasileiras sobre verificação eletroacústica infelizmente sempre foram bastante escassas e, em sua maioria, restritas a capítulos de livros.  Um exemplo mais recente disto é o capítulo 23, da primeira edição do Tratado de Audiologia, publicado em 2011. O capitulo aborda exclusivamente a verificação do desempenho em próteses auditivas. Nele ainda é possível encontrar a informação de que “…até o presente momento não há como se utilizar o estímulo de fala real uma vez que ainda não se tem disponível um estímulo gravado de fala que represente todos os sons presentes nas línguas do mundo…”, (pág. 386). Sugerindo inclusive (…) o uso de ruídos de banda larga tipo “fala (…)”, comprovadamente ineficazes para verificação da amplificação da fala em próteses auditivas de tecnologia digital (Scollie, 2002; e stelmachovitz, 1996).

É sempre importante esclarecer que embora, tanto o Mapeamento de Fala (MF) quanto o Ganho de Inserção (GI) sejam testes eletroacústicos podendo ser realizados in situ (ou seja, na orelha do usuário), eles NÃO são sinônimos. O principal fator de diferenciação entre eles é a utilização da FALA como estímulo de teste, possível apenas no Mapeamento de Fala. Caso queria saber mais sobre as diferenças entre o Ganho de inserção e o Mapeamento de Fala-  clique aqui para assistir ao vídeo.

Introdução do Conceito de Mapeamento de Fala no Brasil

Com o desenvolvimento do sinal em Português/Brasileiro para verificação da amplificação em 2013 (Garolla et al, 2013), finalmente o conceito de Mapeamento de Fala chegou ao Brasil. É importante destacar que a gravação em Português também foi desenvolvida no Canadá, em um projeto conjunto da Universidade Federal de São Paulo com a Western Ontario University.

No desenvolvimento do sinal, em função dos primeiros testes e análises terem sido realizados num equipamento para pesquisas da marca Audioscan, o que permitiu que Speechmapping  pudesse ser realizado em português, nada mais natural do que usar a tradução direta do termo em inglês para se referir ao teste. Daí o uso do termo Mapeamento de Fala de fala no Brasil.

Então veio o dilema: como apresentar à comunidade de profissionais e usuários de amplificação no Brasil um sinal de fala para realização de um teste até então completamente desconhecido, sem explicar o conceito do teste em si?  Ou seja, como o uso dessas gravações poderiam formar um “mapa” da fala amplificada, como interpretar esse “mapa” e principalmente como usar essa informação nos ajustes dos aparelhos auditivos.

Foi então que o conceito de Mapeamento de Fala foi apresentado pela primeira vez no Brasil no 28 º Encontro Internacional de Audiologia – EIA -, ainda com maior foco na apresentação do sinal em Português Brasileiro. Porém, já nesta primeira apresentação, ficou bastante claro a falta de conhecimento da comunidade de profissionais da área (médicos e fonoaudiólogos), até mesmo sobre a possibilidade de utilização de gravações de fala na verificação da amplificação dos aparelhos auditivos. O que diria então a comunidade de usuários de amplificação?

Nesse interim, surgiu a necessidade de divulgação dessas informações, o que acabou gerando minha participação em vários congressos, como EIPA em 2014, EIA 2014 e 2015, GICCA 2015, CONVIPA 2016 E 2017, FORL 2015, 2016, 2017 e 2018, inúmeras apresentações e cursos online e por fim a criação dos canais no YouTube e do portal Mapeamento de Fala.  Finalmente em 2017 o primeiro livro exclusivamente sobre verificação eletroacústica no Brasil “Sinal de Fala em Português Brasileiro para Verificação de Próteses Auditivas”, foi então publicado pela editora Pro-Fono (e pode ser encontrado aqui)

O termo Mapeamento de Fala pode ser utilizado no Brasil?

Sim! Ele não só pode, como deve ser utilizado como sinônimo de verificação da amplificação com sinais de fala. O temo em inglês (speechmap) foi registrado pela marca Audioscan por se tratar de um tipo de avaliação primeiramente desenvolvido por esta empresa e oferecido unicamente em seus equipamentos. Desse modo, empresas concorrentes e que também desenvolviam equipamentos de verificação não poderiam fazer uso do termo em inglês para se referir ao teste que seu produto realizaria. Por isso, o uso de termos semelhantes como “mapeamento visível da fala” por outras empresas.

Entretanto, o conceito de mapeamento de fala (speechmapping), foi amplamente absorvido pela comunidade profissional na América do Norte como sinônimo de verificação da amplificação da fala, justamente por descrever de forma tão simples uma avaliação complexa, mas de suma importância para o sucesso na adaptação de aparelhos auditivos. Prova disso são os inúmeros artigos publicados fazendo o uso do termo. Mais recentemente o título do último livro sobre verificação dos professores Gustav Mueller, Todd Ricekts e Ruth Bentler, todos referência no assunto.

 

 

Concluindo

Inovações acontecem a todo momento, em todas as áreas e profissões. Novos conceitos surgem a todo momento para que esses conceitos sejam absorvidos e colocados em práticas, não basta só tomar conhecimento deles, precisamos também estar abertos à evolução. Isso significa deixar de lado conceitos e amarras abrindo, assim, espaço ao novo.  Não só, mas também precisamos aceitar o novo, lidar com ele e evoluir.

O Mapeamento de Fala é uma prova dessa evolução, se tratando de verificação eletroacústica. Pode ter demorado um pouquinho para chegar até nós (e por isso trabalho tanto em sua divulgação), mas hoje o termo tem sido cada vez mais utilizado e reconhecido como sinônimo de avaliação da amplificação dos sons da fala. Todos ganham com essa evolução, e é assim que deve ser. Contribuindo para a evolução sempre.
Eu estou fazendo a minha parte…e você?

Boa evolução para nos!

Referencias: 

Almeida, K. Verificação do desempenho e controle das características da amplificação sonora. IN: Bevilacqua et al, Tratado de Audiologia, São Paulo: Santos, 2011. 

Garolla, L et al, Sinal de Fala em Português Brasileiro para Verificação Eletroacústica de próteses auditivas digitais, Sao Paulo, Ed Pro-Fono, 2017 

Mueller, H.G., et al, Speechmapping and Probe Microphone meaasurements, Plural Publishing, 2017 

Scollie, S. D., Seewald, R.C. Evaluation of electroacoustic test signals I: Comparison with amplified speech.  

Ear Hear, 2002; 23(5), 477-487.   

Stelmachowicz, P.G.; Kopun, J..; Mace, A.L.; Lewis,D.E. 

Measures of hearing aid gain for real speech.  

Ear Hear, 1996; 17(6): 520–527 

Holube, I., Fredelake, S., Vlaming, M., Kollmeier, B. 

Development and analysis of an international speech test signal (ISTS). Int J 

Audiol, 2010; 49(12), 891-903. 

Deixe um Comentário